terça-feira, 12 de junho de 2018

Marcas do golpe

Se as coisas vão mal, também a mitologia do futebol
sofre e aquela catarse toda perde densidade
Por que toda essa arenga? Porque duas notícias em torno a participação do Brasil na Copa do Mundo que se realiza na Rússia permitem deduzir que o efeito desmobilizador do golpe que destituiu Dilma já é sentido nas nossas práticas culturais; uma sensação de desânimo onde sempre houve empolgação; um sentimento de que somos inviáveis por uma estranha natureza que não sabemos muito bem explicar.

É claro que essa interpretação é a do senso comum e é estimulada por  uma propensão da mídia golpista em encobrir o crime histórico que está sendo cometido contra o país através da naturalização dos seus efeitos: as coisas não vão de mal a pior; é o brasileiro que nutre por elas um pessimismo sombrio e melancólico, como procurou explicar o jornal O Estado de S. Paulo num editorial onde afirma categoricamente que a realidade do crescimento da pobreza, do desemprego, da violência, do colapso dos direitos sociais nada disso existe senão como processo de ilusão psíquica mal-humorada dos brasileiros (leia aqui anedótico editorial do Estadão).

Pois bem: a coisa toda chegou ao futebol. Uma pesquisa do Datafolha revela que o desinteresse pela Copa bateu o recorde e atinge 53% dos brasileiros. A interpretação desses dados indica que a relação do torcedor com os jogos em geral e com os da seleção em particular não é um contrato desprovido de interações com o contexto geral de sua vida. Se as coisas vão mal, também a mitologia do futebol sofre com isso e aquele encantamento catártico que um jogo sempre provoca perde densidade. Pessoalmente, penso que o que faz as coisas irem mal é a dissolução do nosso brilho. Estamos diante do fosso que se abriu entre os canarinhos e o povo. Vale a pena ler o artigo que Douglas Ceconello publicou na página do Globoesporte. A linha fina do texto afirma em tom de denúncia: nossa seleção "foi a única sul-americana que não realizou um jogo de despedida em seu próprio país". Para acrescentar: "o time brasileiro parece não saber mais o que (ou quem) representa)". A seleção já não é a "pátria de chuteiras", como queria Nelson Rodrigues.

Eis aí toda a gravidade da nossa condição: não é exatamente o time brasileiro que não sabe mais quem ou o quê representa; é a sociedade brasileira que está sendo embrutecida de tal maneira pelo neoliberalismo de francaria dessa elite corrupta que são suas referências simbólicas que estão desaparecendo. Vivemos na plenitude do simulacro. Quem é que esquece o momento em que Chico Buarque foi agredido no Rio por um fascistóide do MBL? Quem é que esquece do 7 x 1 do jogo contra a Alemanha? Quem é que esquece do Lula lá na prisão de Curitiba? Quem é que esquece do 17 de abril de 2016, o Dia da Infâmia? Não dá para imaginar que será a Seleção o instrumento da nossa regeneração...

Leia também: * O preço da reforma trabalhista (Folha) * Copa do Mundo começa com desafio de contagiar o Brasil (Estadão) * 40 anos em quatro (Folha) * Brasil deixou de ser país do futebol, diz estudo (DW).
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