sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Um neandertal solto na política brasileira. Talvez mais do que um...

O neandertal é a mais pura expressão da anomia, talvez o primeiro momento em que ela se manifestou na história humana: a incompreensão da norma civilizada. É isso o que está na razão de seu olhar atônito, sempre alerta, para reprimir estupidamente os que lhe são contrários. A eliminação do outro... mulher, homossexual, comunista...

Não pude evitar que essas características me viessem à mente quando tomei conhecimento das declarações feitas pelo general Mourão num evento do qual ele participou em Uruguaiana, no sul do país, quando - diga-se de passagem - foi muito aplaudido (assista ao vídeo). O general não é um homem versado em leis, não é um trabalhador assalariado, não depende de proventos do INSS para viver sua velhice de militar reformado, não conhece coisa alguma de economia, não tem a menor ideia do peso que a renda do trabalhador tem na consistência do mercado interno brasileiro e no padrão de vida da sociedade. Mesmos em saber nada disso, o candidato a vice na chapa de Bolsonaro, propôs um modelo para o Brasil: a liquidação geral dos direitos e a brutalidade conceitual como justificativa para isso. 

O que neandertaliza Mourão e toda a claque atrasada que apoiou seu discurso é a redução do Brasil a um conjunto de preceitos construídos pelo senso comum - eventualmente o caldo de cultura que anima seu eleitorado: a simplificação grosseira daquilo que é complexo e a sua substituição por uma mitologia que o general empunha sem saber sequer de onde vem. Refiro-me aqui em especial à referência que o general fez ao livro de Ayn Rand - A revolta de Atlas -  como fundamento do seu novo ideário ultraconservador. Rand, uma exilada Russa que adotou os EUA como pátria, produziu uma das raras obras de ficção que enaltece de forma cega o capitalismo liberal tal como ele se desenvolveu naquele país. O livro é ruim, abjeto, pernicioso (leia aqui) concebido como um panfleto que criou em torno de si uma legião de gente mal resolvida e indignada com a dissolução do individualismo na sociedade contemporânea... mas foi preciso que Mourão o colocasse como doutrina para nos envergonhar da sua pouca exigência intelectual.

Não sei os que me leem, mas sinto que parte da imprensa que cobre as falas do general - desautorizadas pelo próprio Bolsonaro, imaginem - está apanhando pelos destaques que vem dando a esse glossário de bobagens. Mas parece que não é o suficiente: o Exército brasileiro deveria ser mais zeloso da imagem que escapa de Mourão e se espalha pela corporação inteira, a começar pelo Clube Militar, palco de lutas nacionalistas históricas na vida do Brasil no pós-guerra. Não será o caso dessa turma observar a dilapidação que o Brasil está sofrendo com a perda da Embraer, do Pré-sal, com os roubos do agro-negócio, com a impunidade de Aécio Neves, de Temer?

Vamos ver o que os brasileiros têm a dizer sobre isso nos turnos das eleições, mas estou convencido de que o resultado vai acabar nos levar de volta ao neolítico. Já é alguma coisa...

Muitas sugestões de leituras: * Apreensão com a força de Bolsonaro entre os militares (Carta Capital) * Filho de Bolsonaro publica em rede social foto de simulação de tortura (Valor Econômico) * Carlos Bolsonaro será denunciado por apologia à tortura (El País) * Nem "politicamente correto" nem Bolsonaro seguram Mourão (Piauí) * General não obedece capitão (Piauí) * Liberdade para mentir e propagar ódio (Extra Classe) * São Paulo, a batalha final da direita (El País) * A máquina de "fake news" nos grupos a favor de Bolsonaro no WhatsApp (El País) * Bolsonaro foi acusado pela ex-mulher de ocultar bens em 2006 e ocultar cofre (Carta Capital).
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