sábado, 12 de dezembro de 2020

A lição que o Brasil esqueceu (ou que nunca aprendeu)

Falência da economia brasileira deve pouco à pandemia e muito à estupidez neoliberal

Uma população atarantada num país à deriva: burguesia brasileira não é nem mesmo capaz de formular um projeto econômico coerente com o capitalismo que defende

As consequências  da desmontagem do que restava do Estado do Bem-Estar Social entre nós eram sabidas, não apenas mundialmente, mas também internamente. Não foram poucos os economistas estadunidenses e europeus que advertiram para o caráter recessivo das políticas de austeridade fiscal e de enxugamento dos gastos públicos. No Brasil, diante da criminosa PEC do teto orçamentário que condenou o país à estagnação dos investimentos públicos, porta-vozes do pensamento econômico desenvolvimentista apontaram os efeitos negativos da pauperização generalizada das condições sociais e da depreciação dos valores do trabalho. O Brasil tornou-se, com isso, o 2o país do mundo a registrar o maior nível de concentração da renda e algo em torno de 50% de sua população passou a viver abaixo da linha da pobreza (os textos lincados abaixo são fartos na descrição desse cenário).

Para uma economia periférica que mostra um nível medíocre de acumulação de capital, esse conjunto de elementos recessivos - associados todos eles à fuga de capitais externos - foi fatal.

A pandemia nos pegou nesse voo rasante e atuou como um bloco gigantesco de concreto que inviabilizava quaisquer possibilidades de sair do chão. Ao contrário, o discurso bolsonarista (se é que se pode chamar de discurso o arrazoado destrambelhado de um sujeito despreparado como o ex-capitão) introduziu mais incertezas nesse quadro, em especial pelas proposições de Guedes - que amarrou sua permanência no governo ao seu papel de fiador de novas reformas neoliberais.  

Os dois anos de Bolsonaro na presidência da República vão passar à história do Brasil como o período da dissolução do país. Não foi apenas na mobilização retrógrada que seu discurso provocou numa sociedade sem perspectivas e em estado de desespero, disposta a acreditar em qualquer boçalidade dita por ele e por seus apoiadores; foi também no conjunto de sua ação predatória no campo material, seja no ambiental ou no econômico, no das relações externas, na Saúde, na Educação, na estrutura do Poder Judiciário, no acobertamento de criminosos (alguns deles seus descendentes diretos) milicianos ou fardados... Esses são os fatos que jogaram o país no fundo do poço. O coronavírus tem muito pouco a ver com isso e não é mais que um bode expiatório para o fracasso do modelo econômico neoliberal que nos está sendo imposto.
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Leituras sugeridas: * Lara Resende: Por que Summers e Berbanke agora defendem política fiscal expansionista (Valor, para assinantes) * Uma visão conservadora e equivocada: Como a pandemia 'bagunçou' a economia brasileira (G1O caminho sem saída da economia (Paulo Kliass, Outras Palavras) * O terror da reforma trabalhista - 3 anos depois (Manuella Soares, OP) * Para superação da crise, Brasil precisa abandonar o liberalismo econômico (Bresser-Pereira, IHU) * Esquecer as velhas teorias e gastar (Bresser-Pereira, A Terra é redonda) * A disputa em 2022 será sobre como tirar o Brasil da lama (Sérgio Amadeu, IHU) * O colapso do capitalismo no Brasil (clipping do blog).

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