Dossiê Evangélicos, parte 2

A inquietação tem motivo: não há oportunidade em que supostas lideranças religiosas, quase sempre festejadas pela popularidade que seus cultos midiáticos lhes deram, ocupam lugares normativos de fala: sobre a educação, sobre o sexo, sobre a concepção, sobre a política e o Estado; uma verdadeira enxurrada de nexos arbitrários que põem em risco a convivência democrática. 

Quase sempre são discursos que vêm acompanhados de legiões de políticos que encontram nesse movimento abrigo para sua reconhecida insignificância representativa. Quem seria Marcos Feliciano sem o respaldo evangélico? E Eduardo Cunha, o personagem mais execrado da República e um dos responsáveis pela crise institucional em que estamos mergulhado, teria chegado impunemente onde chegou sem as encenações voltadas para a bancada da Bíblia? Há, portanto, uma tensão que decorre dessas duas linhas de observação da expansão pentecostal: uma delas, relativa à sua densidade; outra, que nos remete ao seu anacronismo programático - que vai do Culto ao Parlamento; de um ministério a outro; - entre o confessional ao laico. 

Tem lógica e fundamento, justamente por isso, o artigo de Kiko Nogueira publicado no Diário do Centro do Mundo - Quando os evangélicos vão mostrar que pastores pilantras não falam por eles? Para o jornalista, Silas Malafaia, Marco Feliciano ou Magno Malta vociferam suas "histerias" diante de plateias silenciosas e desconfortáveis, que não se encontram representadas automaticamente por eles.

É esse o núcleo de interesse das duas matérias publicadas no El País. A primeira delas - A fé evangélica e a política: aposta à direita traz riscos - anuncia a identificação de um estranhamento entre a cúpula das igrejas pentecostais, o simulacro com que promove a pantomima de suas aparições, na Tv e fora dela, invariavelmente ao lados dos poderosos e sempre em proveito de uma clara privatização dos ritos litúrgicos, e sua base social, mais à esquerda das posições políticas que se encontram estabelecidas na esfera pública. Nesse sentido, o aguçamento ideológico que se criou com a campanha golpista pelo afastamento de Dilma Rousseff e a série de desmandos e trapalhadas da interinidade de Temer talvez tenham servido para evidenciar o fosso que se abriu entre a cúpula (atrasada) e a base (sensível à legalidade e às práticas da social-democracia) pentecostal.

A segunda matéria, é a entrevista feita pelo repórter André de Oliveira, com o sociólogo Roberto Dutra, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) para confirmar a trinca que os evangélicos têm testemunhado: "nós não podemos confundir os líderes políticos, que têm na religião um recurso de poder e mobilização eleitoral, com as formas de comportamento, consciência e visão de mundos dos evangélicos", diz ele, numa percepção da complexidade dupla representação do credo muito semelhante à da estudante Carol Santos, evangélica, mas... defensora de pautas à esquerda como união homossexual, descriminalização das drogas, contrária ao impeachment, para quem "sempre vai haver uma influência [das posições da cúpula das igrejas], afinal, vivemos em uma sociedade com valores conservadores, mas isso de bancada religiosa? Não, obrigada".

A discussão está longe de ser bizantina. Em perspectiva, ela envolve uma cuidadosa reflexão sobre as tendências e possibilidades de um reajuntamento do ideário progressista e reformador, de extração socialista (mas não hegemonicamente marxista), após esse verdadeiro tsunami que se abateu sobre a política brasileira nos últimos cinco anos. Essa coisa tem sido tão forte que não é difícil encontrar nas rodas de debates um certo ceticismo quanto ao futuro e sobre o tempo de espera para que o Estado brasileiro se reencontre com sua sociedade. Até lá, diz esse mau-humor surdo que se espalha pelo país, o que vai prevalecer é a hegemonia do reacionarismo e da aversão ao social. É possível que sim, mas a julgar pelas matérias do El País, a hegeroneidade das demandas sociais e seu poder de introduzir a subjetividade política nos processos em andamento, não será tão simples.

Os evangélicos encontram-se nesse miolo de contradições, permanentemente acossados entre a difícil realidade - sempre agravada pelas políticas de desmontagem do bem-estar social que Temer ensaia em seu mandato ilegítimo e ilegal e os apelos de suas 'lideranças", várias delas envolvidas com os mesmos escândalos que corrupção com os quais procuraram legitimar seu discurso . Como a matéria de André de Oliveira ressalta, apostar numa conversão à direita é arriscado.

Abaixo, dois comentários sobre o tema exclusivos para o blog:

Profa. Magali Cunha
da Universidade Metodista de São Paulo
* A matéria e a entrevista trazem temática extremamente pertinente para se entender a presença dos evangélicos na política partidária hoje: a postura crucial de não se ver este segmento religioso como um grupo monolítico, de que não existe um “voto evangélico” e de que os políticos evangélicos em evidência não podem ser vistos como o padrão do que é ser evangélico em termos de discurso e prática. É preciso situar a questão dos evangélicos na política, ainda,  num quadro maior, que não foi tratado nos textos:  a presença dos evangélicos na esfera pública, o que é mais do que a política partidária.   Neste quadro maior, que caracteriza as últimas décadas do século XX e as primeiras do XXI, há fenômenos que envolvem o segmento evangélico interligados entre si: (1) o fortalecimento do ramo Pentecostal, com o surgimento de um sem-número de igrejas autônomas, autóctones, que transformou o cenário do cristianismo, ao provocar um crescimento significativo em termos numéricos e geográficos da população evangélica e uma forte queda do número de católicos; (2) a ampliação da presença das igrejas evangélicas, majoritariamente pentecostais, nas mídias tradicionais, e a extensa participação dos diferentes segmentos desse grupo nas mídias digitais; (3) o crescimento do mercado da religião e o avanço do marketing religioso, que torna os cristãos um segmento de mercado, por meio da oferta de produtos e serviços especialmente desenhados para atender às suas necessidades religiosas, sejam de consumo de bens ou de lazer e entretenimento. 

É preciso olhar o quarto fenômeno, o do crescente engajamento na política partidária, dentro deste quadro.  O papel das mídias é crucial aí: por meio delas é o que segmento conservador evangélico ganha visibilidade, tanto por meio dos espaços midiáticos próprios que eles conquistam, tanto por meio das grandes mídias não religiosas, especialmente as noticiosas, que oferecem voz para suas lideranças nos diversos veículos noticiosos e de entretenimento. Os grupos evangélicos progressistas, mais alinhados com as teologias sociais e com as propostas da esquerda política, são invisíveis nas grandes mídias – não têm recursos financeiros para tal nem encontram afinidade das grandes mídias com seus discursos e práticas; resta-lhes as mídias alternativas e as redes digitais.
____________________
Letícia Nascimento
estudante de Jornalismo
da PUC-SP

* Religião e política não se misturam, isso é certo. Para isso foi instituído o Estado Laico. Não dá para levar a sério uma "bancada evangélica", que tem como principais representantes Eduardo Cunha, conhecido por seus inúmeros processo, e o mais novo adepto do "evangelismo", Jair Bolsonaro. A conversão desse senhor não passa de uma estratégia política para atrair um público evangélico conservador através de discursos como apologia ao preconceito. Como protestante, afirmo - categoricamente - que não me representam ou representam meus interesses.

A participação das igrejas, em especial as evangélicas, nas discussões políticas deveria estar relacionada não à salvaguarda da moral ou dos costumes, mas no atendimento dos seus direitos civis. A preocupação com o cidadão deve ser se o candidato tem proposta para a classe trabalhadora, se a saúde e educação são prioridades, e não se ele é contra que homossexuais possam ser considerados pela Constituição como família ou não; se eles apoiam ou não a legalização do aborto ou a descrminalização da maconha.


Na minha casa, por exemplos, somos três evangélicos e um católico não praticante e na hora de votar nenhum de nós escolhe o candidato por seu partido ou por sua ideologia pessoal. Queremos saber se ele é honesto, algo difícil de encontrar - embora eu condene o sistema político brasileiro e não apenas o político em si -, quais são suas propostas e como elas vão afetar nossa vida cotidiana.


O apoio da bancada evangélica aos impeachment de Dilma Rousseff e agora ao governo ilegítimo de Michel Temer teve a adesão do curral eleitoral das igrejas. No entanto, esse apoio não veio por causa do amor a Deus e à família, que os deputados vergonhosamente demonstraram durante a votação do impedimento, mas porque esses eleitores acreditavam que o governo de Dilma tinha prejudicado as classes populares, sendo a presidente (agora afastada) a principal culpada pela crise na qual o país se encontra mergulhado. Felizmente, a recente descoberta da trama para derrubar Dilma Rousseff e os atos políticos de Temer, que tendem a prejudicar as classes menos privilegiadas, possivelmente vai dispersar esse apoio.


Para a maiora dos evangélicos, essa bancada religiosa apenas suja a imagem das pessoas de fé, que levam a religião a sério e não apenas como propaganda para atingir objetivos políticos.

______________________________

Leia mais: blog Mídia, Religião e Política, que socializa pesquisas do grupo de pesquisa Mídia, Religião e Cultura (MIRE) do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo: http://www.metodista.br/midiareligiaopolitica. A coordenação do Grupo é da Profa. Magali Cunha.


Ainda da professora Magali, Religião e Política: ressonâncias do neoconservadorismo evangélico nas mídias brasileiras, Revista Perseu, n. 11, ano 7, 2016, p. 147-166. (2) Onde estão os protestantes?, O Globo, 29/10/2015


E ainda: Bancada evangélica, uma frente suprapartidária e interdenominacional. Força e instrumentalização no governo Temer (IHU)
______________________________

Nenhum comentário: