Natália Blanco

Conversas de cafetinas

...mulheres que por circunstâncias da vida entraram neste ramo, são administradoras de seus negócios, e têm relações profissionais, em alguns casos relações mais afetivas, com suas funcionárias

Oito mulheres, oito “donas de casa”, oito conversas, muitas histórias. É assim que se divide a obra do jornalista e dramaturgo baiano, Sérgio Maggio. Não conhecia o autor, tampouco seu livro. Mas confesso que me surpreendi a cada página e de maneira alguma me arrependi de ler este livro.

Maggio andou pelas ladeiras de Salvador para relatar histórias de cafetinas da Bahia, principalmente na cidade de Salvador, que sempre foi conhecida pela grande quantidade de bordéis e também em algumas cidadezinhas do sertão baiano. Os relatos foram coletados pelo escritor em meados de 1997, porém o livro foi lançado apenas em 2009.

São 8 capítulos, sendo eles, 8 histórias de cafetinas diferentes. O fio condutor a obra é o fato do autor querer desvendar os mistérios que existem por trás da imagem que essas mulheres carregam, imagem que quase sempre é negativa.

Podemos encontrar histórias das mais diversas, e todas são relatadas da maneira como são contadas ao escritor, em forma de conversa. Cabeluda, Fátima, Nini, Andréa, Saiana, Juci, Minininha e Gina. Todas elas contam como formaram suas casas, o caminho que as levaram para a prostituição, como andava o negócio, relação com clientes, amores e desilusões, e o mais interessante, a relação estabelecida em cafetina e prostitutas. Algumas personagens são figuras muito conhecidas. Algumas das histórias se cruzam, a história de uma se passa no bordel de outra, e por aí vai.

O livro também conta com o texto teatral que reúne algumas personagens dos relatos. A única que não tem relato no livro é China, porém, as histórias de seu cabaré são muitos conhecidas pelas pessoas da região.

A peça se passa em um cabaré falido, onde se encontram China, Saiana, Cabeluda e Minininha, quatro prostitutas, já desgastadas por suas histórias, que tentam de tudo para atrair a clientela. As cenas se passam no salão da casa, onde elas conversas, desabafam, relembram episódios marcantes regados à bebidas e à musica.

Aspectos sociais abordados na obra

É interessante notar como toda a obra trabalha com a questão da autonomia feminina. Primeiro por tratar da imagem que é criada em torno da cafetina. Normalmente pensamos na imagem dos cafetões, como donos das mulheres que trabalham em casas de prostituição e que lucram com isso. Já no livro, vemos mulheres que por circunstâncias da vida entraram neste ramo, são administradoras de seus negócios, e têm relações profissionais, em alguns casos relações mais afetivas, com suas funcionárias. Seria ela uma “vilã” como na maioria dos casos é vista?

O segundo ponto é sobre a crise que os bordéis vêm passando nos últimos anos, que é relatada no livro, e que se deve à autonomia sexual que a mulher conquistou ao longo da história. Sim, a mulher tem o direito de transar com quem ela quiser, na hora que quiser. Em uma sociedade majoritariamente machista, este tipo de pensamento é totalmente condenável, mas que, a luta das mulheres ao longo de anos vem quebrando este tabu.

E terceiro, a legalização da prostituição. Tema antigo que sempre volta à tona.

O Código Penal brasileiro estabelece que:

“Art. 228. Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009)

Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009). Pena - reclusão, de dois a cinco anos, e multa.”

Atualmente tramita na Câmara o projeto de lei, de autoria do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), (PL) 4.211/2012, conhecido como PL Gabriela Leite, uma homenagem a fundadora da ONG Davida – Prostituição, Direitos e Saúde. Para estas associações e ongs em defesa da regulamentação da prostituição, a aprovação da lei garante mais segurança legal para as profissionais do sexo em casos de exploração sexual. O texto da PL caracteriza como exploração sexual se um cliente não paga pelos serviços recebidos.

Por mais que os relatos do livro foram coletados em 1997 e o livro lançado em 2009, a discussão trazida é mais do que atual e necessário. Além de uma ótima leitura, com texto leve, espontâneo e, em alguns momentos até mesmo cômicos, o autor consegue trazer aspectos deste universo pouco discutido e muito discriminado com maestria.

Título: Conversas de Cafetinas
Autor: Sérgio Maggio
Editora: Arquipélago Editorial
Edição: 1
Ano: 2009

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A juventude quer viver, mas não querem deixar


Natália Blanco em ato Interreligioso contra a redução da maioridade Penal promovido pela Rede Ecumênica da Juventude, Praça Roosevelt em maio de 2013
Eu já vi estes garotos uma vez. Logo que entrei vi um menino pendurado numa grade, consertando ou limpando alguma coisa. Eu lembro de olhar para ele sem saber que cara fazer. Nunca havia estado ali. Na ocasião, estava lá para levar uma mensagem bacana para aqueles garotos, mas claro, não pude deixar de sentir a tristeza que eu via naqueles olhares e notar as condições naquele lugar. Eu estava na Fundação Casa, unidade Brás. Era dezembro de 2013.

Um ano e alguns meses depois, em uma semana que recordamos, com tristeza, a instalação de um regime militar em nosso país, nos deparamos com a aprovação da PEC 171/93, que reduz a maioridade penal dos 18 para os 16 anos, pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ). Os votos contrários foram 17, contra 42 a favor. Mais uma decisão que nos afasta da democracia que tanto lutamos para recuperar.

É triste pensar que depois de 51 anos, ainda existe aquele sentimento de que temos um inimigo a ser “combatido”. E como naquela época, uma das vítimas é a juventude. Lugar de criança e adolescente é na escola, não na cadeia.

E ao falarmos sobre redução da maioridade penal, não se pode deixar de levar em conta alguns aspectos que possuem ligação direta com esta discussão:

Escuto muita gente dizendo: “ah, mas hoje os negros já conquistaram seus direitos, não temos mais racismo, isso é exagero”. Ok, então vamos lá: quem são as maiores vítimas da violência policial hoje? O jovem negro e pobre da periferia. De acordo com dados do Mapa da Violência, um estudo realizado em 2013 pelo sociólogo Julio Jacob Waiselfisz, em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do governo federal, vivemos num período em que o número de homicídios contra a população branca vem caindo gradativamente. Em 2002, este número era de 18.867, em 2011, o número caiu para 13.895. Um decréscimo de mais ou menos 26%. Em compensação, as vítimas negras aumentaram em 30%. Em 2002 o número era de 26.952. Em 2011, 35.297.

A juventude negra é a maior vitima da criminalidade hoje. E criminalizá-la não ajudará muito a combater a violência. Não tem como relacionar a redução da maioridade penal com a redução da violência. Em 20 anos, 3% dos homicídios cometidos no Brasil foram por adolescentes. Em 2013, este número foi de 0,5%. A mídia ajuda a propagar a idéia de que crimes cometidos por adolescentes são a maioria, quando o número de homicídios cometidos por jovens de 16 a 18 anos não chegam nem a 1%, segundo a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Crianças e do Adolescentes. Ainda de acordo com a Unicef, somente 0,013% dos 21 milhões de adolescentes cometeram algum ato contra a vida.

Seria a solução colocar estes jovens na cadeia, quando na verdade estes jovens deveriam estar na escola, com acesso a cultura, lazer, dignidade? Não é novidade para ninguém que nosso sistema penitenciário está saturado. Se colocar pessoas na cadeia fosse a solução, acredito que o problema da violência no Brasil já estaria quase erradicado. Usando o mesmo período, 20 anos, o número de presos aumentou 400% no país, de acordo com dados do Ministério da Justiça. Em contrapartida, nossa população aumentou em 36%. Ou seja, era para vivermos numa paz que só, né!? Se a porcentagem de presos é maior que a da população... Repito minha pergunta: não seria melhor investir na educação, cultura, lazer, e qualidade de vida destes jovens?

Outra coisa que me veio à cabeça: a ideia de confinamento seria o tratamento do indivíduo que por algum motivo, não conseguiu agir em sociedade e, portanto, cometeu algum erro. Este tratamento visaria a recuperação desta pessoa, para que assim, esta retornasse ao convívio social.  No campo teórico isso é maravilhoso, não? Só que a realidade é bem diferente. Como disse aqui antes, as cadeias estão saturadas. O Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, atrás de EUA, China e Rússia. Estudos realizados pelo Centro Internacional de Estudos Penitenciários, a média de pessoas presas no mundo é de 144 para cada 100 mil habitantes. Aqui este número sobe para 300. São 574 mil pessoas presas neste país.

Hoje, jovens infratores são 8% do total de presos adultos, com a maioridade estabelecida em 18 anos. E a situação das unidades da Fundação Casa, responsável por adolescentes infratores também não é diferente da situação dos presídios para adultos.

São 574 mil pessoas que entram nas cadeias Brasil afora, e saem muitas vezes, piores do que quando entraram. Como se ressocializar em um lugar onde você fica praticamente feito “sardinha” em lata, sem condições de trabalho para todos, tendo que se “vender” em meio a um sistema corrupto (e falo de organizações criminosas como as instituições policiais), sendo tratado feito “lixo”. E é isso mesmo que algumas pessoas pensam sobre os presos. Não é a toa que o discurso “bandido bom é bandido morto” perpetua pela sociedade atual. Cerca de 92% dos brasileiros apoiam a redução da maioridade penal, revelou uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes feita em 2013. Para uma bancada mega conservadora isso é ótimo.

Mas eu não consigo fazer parte destes 92%. A imagem daqueles garotos que relatei no início deste texto é muito nítida na minha cabeça para eu fazer parte destes 92%. A imagem de um garoto que deveria ter mais ou menos uns 14 anos, idade do meu irmão. A imagem de um jovem com a tatuagem de uma virgem Maria. A imagem do garoto, que devia ter quase a minha idade fazendo o sinal da cruz. Esses e tantos outros garotos que por condenação social e falta de oportunidades, estavam ali, me olhando. Por ser jovem, defendo que estes jovens tenham educação e não prisão. Por ser jovem, defendo que estes jovens não sejam vistos como ameaças. Por ser jovem, defendo que estes jovens tenham o simples direito de serem jovens. 
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Impressões de uma jovem (politicamente) incomodada.

“Mãe, eu sou de direita porque sou contra o governo, né?” – Respondeu a jovem ao ser questionada pelo repórter.

Ao assistir esta fala em um vídeo publicado na internet sobre a manifestação do dia 15 de março confesso que fiquei um pouco assustada, e um tanto (um tantão) incomodada. Há mais ou menos dois anos o pais inteiro parou para prestar atenção na juventude que saiu às ruas para reivindicar direitos, no que ficou conhecido como os “Protestos de Junho”. O que havia sido impulsionado pelo aumento da tarifa no transporte público, desencadeou mais uma série de reivindicações que chamou a atenção, inclusive, do poder público. Escutamos tanto “O gigante acordou”, mas será que esse “gigante” acordou mesmo, ou está sofrendo de sonambulismo? O que me fez pensar nisso foi justamente a fala do início: “Mãe, sou de direita porque sou contra o governo, né?”. O quê é direita? Esquerda? Alguém sabe? Alguém já se interessou em saber? Como assim? 

Minha critica não é em cima da jovem, e sim da ideia que ela representa com este tipo de resposta. Está mais do que claro que a juventude brasileira carece de educação política. 

Tenho 20 anos, provavelmente a jovem da declaração acima deve ter mais ou menos a mesma idade. E se não tiver, a diferença não deve ser muita. Cresci escutando da maioria de colegas que política é coisa pra velho. Bom, se fosse assim, acredito que não poderíamos tirar nosso titulo de eleitor aos 16 anos, certo? 

Enfim... Depois de comparecer ao protesto “Anti Dilma” (e que fique claro que fui como repórter e não porque compactuo com a onda “anti tudo” que está solta por aí) pensei em algumas coisas. Ao estar lá me lembrei do dia 20 de junho de 2013, quando muita gente foi para a Paulista comemorar a revogação do aumento da tarifa do transporte público. Lembro que naquele dia aconteceu um episódio lamentável, em que partidos e grupos de movimentos sociais de esquerda foram hostilizados por uma multidão, digamos que, mais conservadora. 

Mas a questão nem é você ser conservador ou não, e sim você não saber respeitar uma pessoa por ela não pensar da mesma maneira que você. O que eu vejo hoje é ódio, muito ódio. Ódio de uma massa que não foi educada politicamente, que odeia e é contra pelo simples fato de odiar e ser contra. Quais motivos? Todos? Você é contra o quê? Conta tudo que está aí! Calma aí, né.

Xingar a presidente e outras figuras do PT, pedir intervenção militar, e hostilizar quem se identifica com a esquerda, não é maneira de protestar. Pelo menos para mim.

Lembro de uma fala do Sakamoto em 2013 em que ele dizia que finalmente a direita reacionária finalmente saiu do armário. Saiu e agora quer dar paulada em todo mundo. Uma juventude que infelizmente não teve educação política alguma, vai às ruas para gritar fora PT achando que a corrupção mundial vai acabar se um impeachment acontecer. Ou achando que xingar a presidente (lembrando que essa atitude vem recheada de uma dose bem gorda de machismo) vai fazer o país mudar.

Que ótimo que as pessoas agora “discutem” política. Mas antes, precisamos a aprender a fazer isso direito. Antes da gente perguntar para a mãe se “sou de direita porque sou contra o governo”, vamos saber o que ser de direita significa. Porque, para mim, respeito está bem acima de posicionamento ideológico.
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Homenagem aos “sem nome”


Há mais ou menos um ano e meio atrás vivi um dia atípico, com uma das sensações mais estranhas que nunca havia sentido até então.

Era 2 de novembro, feriado do dia de finados. Apesar de já ter sofrido com perdas próximas, nunca havia estado em um cemitério no dia de finados. A experiência estranha já começava aí. Mas mais estranha que isso, era avistar a imagem daquele lugar. Não estava sozinha, havia muitas pessoas ao redor, gente comum, gente da imprensa, gente da igreja. Muita gente. Todas pelo mesmo motivo que eu. Então, eu vi aquele espaço, sem lápides ou túmulos, nem flores ou faixas, ou qualquer outro tipo de cortejo. Aparentemente era um monte de terra. Só isso.

Só isso? Aos olhos dos que são cegos à realidade, sim. Aos olhos dos frios, dos brutos, ouso até mesmo dizer tolos, sim, era apenas um monte de terra. Eu não. Tanto eu quanto todas aquelas pessoas a minha volta víamos muito mais do que isso. Víamos histórias, sonhos, pais, mães, irmãos, amigos.  Víamos força, esperança, víamos, sobretudo, vidas.  Apesar do local onde estávamos dizer o contrário.
Sabe por que eu pude enxergar vida em meio à morte? Porque a morte não foi capaz de apagar o legado que aquelas pessoas enterradas ali, mesmo que não saibamos seus nomes, foram capazes de nos deixar. O exemplo de luta, de busca pela justiça, de perseverança e acima de tudo, o desejo de não se submeter a qualquer tipo de opressão que pudesse ser imposta. A busca pelo grito!

Hoje completa 50 anos que aqueles gritos começaram a ser calados. “Calados” para quem pensa que chicote pode calar alguma coisa. Chicote pode esquentar o traseiro, não calar a boca. Fica a dica para quem ainda pensa assim. E eu sei que ainda tem gente que pensa assim.

E por que será que ainda tem gente que pensa deste modo? Bom, Hanna Arendt nos mostra que a maldade é tão tola que chega a ser banal. Chega estar impregnada, graças a um vazio de pensamento. Mas vejam, o fato do sujeito ser “dotado” de um vazio de pensamento, não o torna ingênuo muito menos indefeso perante a quaisquer erro que venha a cometer. A maldade no ser pode ser banal, porém, seus crimes não. A análise de Hanna é em cima do julgamento de um funcionário do governo nazista, Adolf Eichmann, responsável por encaminhar nomes de judeus para o extermínio, durante a “solução final” do nazismo.

Como a maldade é uma só, podemos trazer para nossa realidade esta análise. Existiram muitos Eichmanns aqui no Brasil durante a ditadura. Aqui, no Chile, na Argentina... E infelizmente, ainda existirão muitos Eichmanns. E é por isso, que hoje precisamos continuar gritando como nossos irmãos e irmãs gritaram no passado. É por isso que eu enxerguei vida e não morte naquelas valas comuns do cemitério da Vila Formosa naquele dia de finados. Nada do que fizeram contra aquelas e tantas outras pessoas, será capaz de apagar as memórias que ficaram.

As memórias nos dão forças para continuarmos gritando contra a ditadura disfarçada que ainda nos resta. Nos inspiram a enfrentar qualquer tipo de autoritarismo imposto. Nos fazem enxergar a violência cometida contra nossa juventude negra, contra os pobres. Nos fazem “vomitar” tudo aquilo que nos é imposto goela abaixo.

Minha formação religiosa me ensinou que a verdade liberta. A memória liberta e nos traz esperança. Deixo meu eterno respeito e admiração por todos os “sem nomes” das valas comuns, quanto àqueles/as de nomes conhecidos, e a esperança de que, como diz a canção, “irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra e um novo mar. E neste dia os oprimidos a uma só voz a liberdade irão cantar”.
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Festas: tempo de refletir e... lutar!


Fim de ano. Tempo de reflexão, avaliação, balanços. Os bons sentimentos começam a aflorar no coração de cada um; tempo de reconciliação, generosidade, alegria. O sentimento de igualdade - “somos todos irmãos, vamos celebrar” - aflora no peito. Para os cristãos, tempo de advento, de espera pelo menino Jesus, e até mesmo para aqueles que não acreditam, é tempo de montar a árvore de natal, fazer os cartões e enfeitar as sacadas com luzes pisca-pisca...

Em meio a esse clima de euforia e bons sentimentos, abrimos o jornal e nos deparamos com uma manchete sobre um garoto negro que é impedido de renovar sua matrícula por conta do seu cabelo. É preciso conferir a data deste jornal mesmo? Será que o ano está correto? 2013? Sim! É 2013 mesmo, em pleno século XXI.

Mas, espere aí. Há menos de 20 dias comemoramos o dia da Consciência Negra, e há quem defenda a ideia de que não precisamos de um dia para a consciência negra, e sim da consciência humana.  Pelo menos na minha percepção, consciência humana todos nós já temos, uma vez que somos humanos. Ou pelo menos deveríamos ser.

E como esta vida é cheia de ironias, ao ligarmos no fim da tarde nossas TVs, rádios, celulares, entre outros aparelhos, somos surpreendidos com a infeliz notícia de que um dos maiores defensores da Igualdade e liberdade racial, social e de direitos, morreu.

Nelson Mandela, no alto dos seus 95 anos estava aí para mostrar que humanos todos nós já somos; o que precisamos mesmo, é nos lembrarmos disso. Com toda a dificuldade que um negro poderia enfrentar, Mandiba andou na contramão de tudo o que era imposto pela sociedade segregacionista sul africana e transformou 27 anos de isolamento em uma prisão em esperança para seu povo.

Mandela se foi, mas sua luta e ideais por um mundo mais justo permanecem.  Permanecem e é nosso papel continuarmos lutando. Os números estão aí para provar que o racismo ainda existe, muito, e bem próximo de nós. Já disse o antropólogo Kabengele Munanga: “Nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira”.

Um dos últimos estudos realizados sobre violência no Brasil, o “Mapa da Violência”, lançado em 2012 por Julio Jacob Waielfisz, nos revela que o Brasil sempre esteve nas primeiras posições em estatísticas que demonstram os países mais violentos, sobretudo contra a juventude negra. Enquanto o número de homicídios brancos caiu de cerca de 18 mil em 2002 para algo em torno de 14 mil em 2010, o número de homicídios negros aumentou fortemente: passou aproximadamente 26 mil para 35 mil: um aumento de quase 30%.

Além dos números, a cultura impregnada também está aí para reforçar a tese. O padrão de beleza importado de países europeus e dos EUA não admitem a beleza negra, vide a era da “ditadura da chapinha” que nos encontramos.

Aliás, quanto mais se esconder tudo o que for relacionado à cultura afro, melhor. Em todos os lugares podemos ver isso. Até mesmo dentro das igrejas, principalmente as de segmento neopentecostal, que pregam a demonização das religiões afro e suas influências culturais. E pior: sob o discurso “somos todos iguais perante Deus”, as igrejas fazem questão de ignorar a necessidade do direito à liberdade de religião, dignidade e justiça, direitos tão violados entre a população negra do país. Claro que existem os movimentos ecumênicos e de negritude que fazem o esforço para juntar forças à causa, promovendo debates e espaços para discussão, mas esta é uma parcela mínima que não podemos encontrar facilmente, principalmente diante do império das grandes denominações midiáticas.

Olhando o pequeno quadro traçado aqui, temos motivos mais do que suficientes para não deixarmos a luta que Nelson Mandela nos legou.  A luta é contra o racismo, e contra qualquer tipo de discriminação que pode existir neste vasto mundo.  “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta”.

Neste tempo de festas, de reflexão, façamos o exercício de não apenas refletir o que nosso ego deixou ou não de conquistar. Reflitamos naquilo que a sociedade, como um todo ainda pode alcançar. Reflitamos sobre todos aqueles que hoje são impedidos de refletir por conta desta sociedade individualista e preconceituosa. Reflitamos em como podemos reaprender com o exemplo de Mandela a sermos mais humanos.
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“A militarização da PM não está apenas no nome”, diz pai de ministro e sobrevivente da ditadura


Para Anivaldo Padilha, sociólogo e pai do ministro da saúde Alexandre Padilha (PT), a própria sociedade, ainda hoje, legitima o comportamento militarizado da polícia, os abusos cometidos, sobretudo contra a população pobre, jovem e negra. “A classe média não entrou na modernidade, ela não aprendeu a conviver com a democracia social.” Durante a ditadura militar, ele sofreu com os abusos de repressão e tortura, chegando ao ponto de ter que fugir do país.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56% dos jovens que são vítimas de homicídios em São Paulo são negros moradores de cinco regiões periféricas listadas pelo censo: Pirituba, Itaquera, Sapopemba, Campo Limpo e M’Boi Mirim. Do total de jovens mortos em confronto com a Polícia Militar em 2010, 71% eram negros.

Dados também confirmados pelo “Mapa da Violência 2012 – A Cor dos Homicídios”, feito pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir), pelo Centro Brasileiro de Estados Latino Americanos (Cebela) e pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), primeiro levantamento nacional sobre homicídios de acordo com a etnia. Entre o período de 2002 até 2010, foram registradas 418.414 vítimas de homicídios, sendo que 65,1% delas eram negras (continue a leitura)
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